• Arthur Gadelha

Para Ter Onde Ir: não ter lugar

Atualizado: Mar 24

No cinema de Jorane Castro, um Pará que pulsa na memória.

A memória cultural brasileira pouco fala sobre o cinema paraense. Eles não estavam em destaque na era dos grandes estúdios, na “revolta” do Cinema Novo, na Retomada, e ainda não disputam atenção nos festivais e salas de comercialização. Mas o Pará faz filmes; felizmente cada vez mais pela descentralização que os editais federais vieram permitindo ao país. 


Para Ter Onde Ir, primeiro longa de Jorane Castro, entende o poder de se fazer um filme regional, ao mesmo tempo que se permite supor sentimentos em uma história muito maior do que é dito. As três mulheres que dominam com leveza o ritmo dessa obra, parecem tão conscientes da jornada quanto desconfiadas do fim que levariam - não sabemos tão cedo o que realmente procuram.


Já tem uns 17 anos que não volto ao Pará, meu estado natal; saí de lá com pouco mais de seis anos de idade rumo à Fortaleza, onde construí minha identidade. Não lembro bem dos espaços, e ritmos da cidade, mas no primeiro belíssimo plano de Para Ter Onde Ir, voltei, como a corda de Gilberto Gil que o puxa na canção “Sandra”. Eva, a protagonista, percorre um rio extenso, mas não vemos o barco: Eva parece flutuar sobre as águas. De repente, chove, e as gotas de água mediam lentamente a realidade de seu espectador. A relação de destino entre as mulheres e as águas é imediata: estão sempre correndo em alguma direção, sem necessariamente precisar chegar. Essa fórmula vai se renovando a cada novo plano, construindo a imagem enraizada de um Pará aquífero, fértil, natural e imenso. Ainda mais quando a fotografia de Beto Martins (de História da Eternidade) torna o cinza numa cor acolhedora.


Na trama, três amigas pausam suas rotinas e partem numa viagem em contradição à cidade. O destino também é uma contramão da vida urbana, e por isso o próprio carro vira um objeto estranho - em um plano-sequência, o automóvel é filmado como invasor. Enquanto a praia é filmada como um oásis, um lugar de paz, de uma vida abertamente simples, sem fim, sem tempo. Elas, no entanto, buscam laços que se perderam por ali. 


Jorane confia demais em suas mulheres; elas escondem anseios e medos, sobrando à nós as reações, os olhares, e o mistério. Até o conflito de Keithylennye, o mais exposto, não contribui para uma resolução que possa identificar a sua vontade. Enquanto Melina vaga em busca de uma fisicalidade do amor, Eva, a mais complexa, está atrás de conseguir viver - essa última questão é curiosa porque não é explorada num tom melodramático. Quando ela finalmente encontra o que buscava desde o primeiro segundo da história, Jorane filtra a angústia e converte tudo à natureza em volta; ficamos sem saber, mas conseguimos sentir. É o vento e o mar que estão em volta, e, assim como nós, observam.


Essa história, aliás, estabelece uma necessidade forte de naturalização. É se aproximar de sentimentos alheios e decidir embarcar com todo o “tédio” das pessoas normais, exatamente como a jornada melancólica de Iremar em Boi Neon. Embora vá construindo com rapidez o rumo da história, chega um momento (talvez na virada para o segundo ato) que tudo estaciona. Muito envolvimento se perde por aí, mas a viagem se transforma num retiro de emoções entre amigas que ainda desconfiam das próprias vontades, que questionam silenciosamente se tudo aquilo vale a pena. 


Colocando-se entre um filme-verdade e uma poesia geográfica, Jorane Castro filma como um experimento. A que lugar pertence a câmera? O que ela precisa filmar e, principalmente, o que realmente precisamos ouvir? O plano do balanço, da sinuca, das águas, dentre muitos outros, reforçam o pacto entre o sentimento explícito de esperança e o paraíso que os entorna. Não à toa é para onde estão indo nos penúltimos planos do filme. É algo simples, mas concebido com muito mistério e poucas respostas. Percebemos, quando se juntam ao mar, que a questão não é ficar, mas resolver o que insiste em segurar para não ter a obrigação de ir. Ou seja, não há um lugar que as pertença; nem aqui e nem depois. 

★★★★

Direção: Jorane Castro

País: Brasil

Ano: 2018