• Arthur Gadelha

Obra: homenagem grega

São Paulo não pode ser coisa boa


Gregorio Graziosi trouxe uma larga experiência com curtas-metragens para se aventurar pela primeira vez em terra de longa. É curioso compreender as razões pelas quais ele tenha escolhido São Paulo, em todos seus sons e silêncios como plano de fundo para a jornada desbravada de seu herói angustiado. Irandhir Santos leva o enredo minucioso nas costas e carrega a produção como um diálogo, entre João, seu personagem, e o restante da cidade.


A primeira poderosa impressão de “Obra” surge em sua abertura sufocante. Enquanto somos apresentados à uma cidade labiríntica e imersa numa névoa caótica, um som angustiante toma a tela até que o nome do filme surja inesperadamente. O cinema treme; o susto impressiona. A qualidade estética desliza sob um desenho de som primoroso do início ao fim, sem ceder à opacidade da trama.


Gregório realiza o que parece ser uma homenagem a São Paulo, com um bônus de grego: somos vítimas da cidade que construímos, somos líderes das obras que são edificadas sobre o passado e se chancelam, indiscutivelmente, como nosso futuro. Essa sensação angustiante se torna o presente de “Obra”; não somente seus personagens, como a própria cidade se perde em seu grandioso dever industrial (quase uma versão moderna e mais aflita de “São Paulo, Sociedade Anônima” de Luiz Sérgio Person). Sendo assim, temos uma vilã na história que o herói a constrói todos os dias.


Uma “falha” no sistema o permite refletir sobre a angústia que patrocina ao construir ainda mais prédios para dividir um espaço no mar de torres; ao encontrar ossadas nas escavações, o que deveria ter sido um cemitério clandestino, João se pergunta do passado. São Paulo, no entanto, é denunciada como uma cidade de presente, e somente a ele, anuncia-se devota. Quem eram aquelas pessoas? Por que foram esquecidas? Perguntas que nada importam no processo corporativo já que a cidade testemunha com naturalidade a morte de operários como um mero índice seguido de um julgamento para o pagamento de uma indenização. Isso é comum em nosso cotidiano; a obra não para.


Embora muito se discorra sobre “Obra” e que impressione em sua estética visual e sonora inabalável, não há muita discussão. A narrativa de Gregório se preocupa com as camadas de tempo que a cidade rápida e friamente substitui. Há uma crise, um devaneio e uma resposta. A conclusão do turbilhão de emoções simplesmente adormece o caos e volta à estaca inicial de conformismo de seus personagens para com a cidade. Ela continua angustiante, fria e arrogante. Gregório deixa uma centelha de pessimismo declarado: São Paulo não pode ser boa coisa.

★★★½

Direção: Gregorio Graziosi

País: Brasil (SP)

Ano: 2015