• Arthur Gadelha

Nova Ordem: a caricatura da subversão

Atualizado: Mar 30

Ao priorizar o escape da violência como tradução da desordem sobre hierarquia social, Michel Franco esvazia a própria crítica de sentido

Evocado em alguns filmes para expor a brutalidade de um contraste, o recurso de "dualidade" em uma trama corre o risco comum de um mal precipitado: o ponto em que o abismo está tão excessivamente definido que os lados se caricaturam - especialmente quando no centro da discussão está a violenta hierarquia social que coordena a riqueza e quem a acessa. Filmes como Que Horas Ela Volta? e Parasita são exemplos recentes de obras que conseguem manter o equilíbrio e, ainda assim, oferecer brutalidade. E, evidentemente, há complexidades para além disso como em Bacurau, por exemplo, onde o vilão é explicitamente caricatural em contraponto à fisicalidade de seus protagonistas.


Além de se perder exatamente nesse risco, Nova Ordem vai além da própria desordem e caricatura a forma também. A violência em seu exagero gráfico chega a invalidar essa divisão de classe aparentemente estabelecida como guia para um roteiro que, depois de meia hora, parece esquecer por qual motivo abraçou o choque. Como o desprezível A Serbian Film (2010) que se transforma em algo desonestamente pior do que aquilo que "acusa".


No primeiro terço, Michel Franco joga as cartas de forma até elegante do ponto de vista narrativo: há uma festa muito rica em andamento enquanto uma revolta se constrói no México que existe do lado de fora, cenário que, inicialmente, dualiza as ruas com o que parece ser uma realidade paralela. A chegada de um ex-funcionário para pedir ajuda financeira é a agulha que começa a furar a intocabilidade dessas engrenagens, a reaproximação gera um conflito atraente no suspense. Em seguida, é quando Franco desliga a música e mostra ao que realmente veio: a revolta não tem conversa.


Curiosamente, é o mesmo momento em que a ruptura se perde em si mesma quando a camada dos "ricos que parecem vítima" vai deixando a ironia de lado para se parecer com uma afirmação. Virado de cabeça para baixo, o roteiro põe em evidência o núcleo do exército e sua relação com a refém para discutir corrupção dentro do poder. Essa trama vai ficando enfadonha pela repetição e ausência de ferramentas discursivas para além do choque e de sua "cobaia" enquanto o entrelaçamento com a discussão sociorracial é feita às pressas e a soma de todos os conflitos não ultrapassa a superficialidade da indignação. Fora dali, a intenção se borra amargamente.

★½

Direção: Michel Franco

País: México

Ano: 2020