• Arthur Gadelha

Narciso em Férias: memórias de alguns Caetanos

Atualizado: 9 de Out de 2020

Montado como interrogatório linear, o único documentário brasileiro presente no Festival de Veneza 2020 é uma aula de como ouvir um bom contador de histórias

Há algo muito esperto aqui porque além de ser um filme sobre Caetano Veloso, comporta-se também como um filme dele. Com as pernas cruzadas sobre uma cadeira no vazio que parece ser um galpão, Caetano narra sua prisão em 1968 com tal minúcia, que passa batido a completa ausência de recursos padrões do documentário, como fotos e vídeos de época.


Um filme esperto pois Caetano é um narrador sem igual e as imagens se constroem do lado de cá da tela. O sentimento, os corpos, as dúvidas e as superstições que o cercaram, tudo descrito com uma emoção que silenciosamente nunca desgruda da tela. Curiosamente (e quem sabe proposital), soa como um interrogatório no estilo ditador: solitário.


A quebra dessa estrutura centrada no relato integral vai acontecer lá depois da metade e acontece como um chute. Caetano é quem pede pra parar. Faz lembrar que esse relato não é uma entrevista de TV. Faz lembrar que é um filme.


Narciso em Férias poderia ser chatíssimo, mas com Caetano isso seria uma meta muito difícil de alcançar.

★★★★

Direção: Renato Terra e Ricardo Calil

País: Brasil

Ano: 2020