• Arthur Gadelha

King Kong en Asunción: em busca de um filme

Em homenagem ao ator falecido Andrade Júnior, o novo filme de Camilo Cavalcante se contenta com a espera.



Ainda nos primeiros segundos, a existência do matador de aluguel exausto e alheio à própria violência convence imediatamente. Muito porque o cenário em que Camilo apresenta seu último assassinato é tão sufocante quanto a sensação de solidão diante do desfecho de uma longa vida clandestina. Talvez seja o fim. É no talvez que a saga deste inofensivo senhor surge e caminha em alguma direção: cansou da sua identidade, lembrou-se da filha que nunca chegou a ver.


A partir desse terreno construído de forma minimalista é que as coisas, porém, começam a desandar. Fica a impressão de que essa história seria um belo curta-metragem se não fosse a duvidosa intenção de transformá-la num experimento (aparentemente) político. Na sua peregrinação silenciosa, King Kong vai funcionando como um filme que parece nunca começar de fato, isso porque nesse meio-campo entre o experimentalismo vazio e a liberdade narrativa sobra uma vontade de contemplação tão em evidência que é impossível não ceder. De vez em quando, a duração dos planos parece unicamente querer homenagear a presença do saudoso Andrade Júnior, e não realmente contar algo ali dentro.


Momentos como o assassinato inicial, a viagem de ônibus, o choro no espelho e a volta pela cidade ao som de Pholhas... são sequências que funcionam na expectativa de algo que vá, finalmente, importar. Mas esse algo nunca chega, apesar da curta imersão num passado macabro. A narração em guarani sobreposta durante toda a projeção tenta entregar essa substância, e é notável sua busca por detalhes para tornar esse personagem minimamente conflituoso - afinal, no assassino que parte ao encontro da filha há de se esconder algo peculiar. Mas esse recurso se esgota muito cedo.


A experiência de King Kong en Asunción parece com o que Terrence Malick fez em Song to Song (2017), ao querer sustentar o vazio da existência enquanto a esvazia completamente de sentido na expectativa de que este ato consciente, por si só, seja suficiente para construir uma mensagem afetiva.


Então tudo vai cansando, e o filme que nunca começa também não consegue terminar. É nos minutos finais que Camilo tenta evocar a explosão que abriu essa jornada ao encurralar seu frágil protagonista ao vazio que sequer era novidade, e sua narradora à uma metalinguagem completamente perdida. A viagem em círculos.

★½

Direção: Camilo Cavalcante

País: Brasil, Bolívia, Paraguai

Ano: 2020

*Filme assistido durante o 48º Festival de Cinema de Gramado