• Arthur Gadelha

Com os Punhos Cerrados: A Fuga e a Resistência


“E no final das contas, ainda nos tiram o direito de enlouquecer”, diz um dos personagens da rádio pirata que se torna tema de ‘Com os Punhos Cerrados’, lançamento do coletivo audiovisual Alumbramento. E, se tem uma coisa que eles compreendem muito bem, é a conversão da própria loucura. Conhecido por temas e abordagens experimentais, o coletivo vem marcando presença há alguns anos - em 2016, a obra ‘O Último Trago’ impressionou a crítica por ser igualmente confuso e magnético. E, assim como nele, em ‘Com Os Punhos Cerrados’ há uma mensagem que é recepcionada além das metáforas lógicas como um inquietante processo de incitação.


Ao começar com diálogos e interpretações artificiais, compreende-se que este é um trabalho de caráter independente. Fato que não poderia estar mais alinhado em um filme que tem como foco discutir de modo livre textos de pensamentos “libertários”. Apresentando jovens de uma rádio pirata com um protagonismo não-heroico, o roteiro (escrito pelos próprios diretores) propõe um sopro de transgressão em espaços distintos. Seu discurso é genericamente político, mas, por ser e querer ser um filme livre, as reflexões internas podem imaginar muitas lutas das quais aquela situação poderia servir de exemplo. 


Nesse sentido, assume até mesmo um espelho ao hoje desconhecido cinema marginal brasileiro. Rivalizando em essência com o Cinema Novo, um movimento artístico que não desfrutava de muito pudor. O coletivo traz essa característica estético-narrativa como um ponto de partida para as feridas do formalismo social e principalmente econômico, um grito ainda comportado a favor da liberdade; inicialmente voltado ao nosso convívio corporativo, de rotinas presas ao capitalismo, e posteriormente como um recado para o lugar da arte e do artista. Quando o moralismo precisou afetar a arte? Quando se prendeu a um círculo do que é recomendado? Desde quando não pode enlouquecer?


Sua trama é resumida a extensas interpretações de poesias e pensamentos de lógicas sociais; tudo dentro da rádio pirata anarquista. Exagera, é verdade, construindo uma uma ambição confusa, mas é interessante que este seja ensaístico de modo diferente ao O Último Trago e encontre, nessa possível proximidade de discurso, uma direção mais contemplativa. É instigante que essas reflexões se deem além do conteúdo textual, expandindo-se para um caos visual convidativo e uma inspirada “paleta musical” - a sequência da fuga ao som de ‘Les Anarchistes’ é arrepiante.


Com Os Punhos Cerrados pode ser resumido como um devaneio sobre algumas prisões. Ao empregar o cenário apocalíptico numa Fortaleza reduzida à precariedade, parece afirmar que isso não pode vir a acontecer, pois a fuga deixa de ser covardia e se torna resistência. Erguei os punhos cerrados e prepare a mudança que estar por vir. É utópico, sem muito compromisso com o "fazer"; o máximo que articular é uma incitação ideológica desse motivo. E como símbolo artístico, aponta principalmente para um cinema livre de censuras internas. Se ainda não o é integralmente, deixa para que próximas gerações assumam o desafio.