• Arthur Gadelha

Ceará Filmes: um projeto bom de promessa

Na noite desta terça-feira, 09, o Governo do Ceará lançou em parceria com a Ancine um curioso programa de incentivo ao desenvolvimento do cinema no Estado, batizado de "Ceará Filmes".


Meu sentimento inicial em torno do lançamento do programa cultural Ceará Filmes foi de desconfiança, apesar do positivismo. Isso porque o evento foi envolto de muita cordialidade e isso acaba ofuscando o que há de relevante a ser discutido. É bonito, uma cerimônia de agradecimento, de esperança, de norteamento. A proposta é ambiciosa; um dos eixos prevê a construção (e aí mora o receio logístico de tempo) de duas salas de cinema em dez cidades do interior do Ceará. A ideia, em sua essência, já é instigante: a construção de 20 novas salas é uma façanha excitante independente do que nelas sejam exibidas e de que tipo de gerência terão. O principal resultado esperado é que isso seja capaz de construir públicos, e é fácil observar como esse planejamento parece correto.


Em Fortaleza, o próprio Cineteatro São Luiz (após a reabertura em 2016 e com a curadoria inicial de Duarte Dias) encontrou relevância diante da obviedade de shoppings e do já bem-sucedido Cinema do Dragão. Imagine esse cenário em cidades que não possuem o temido cinema de shopping. Após o impacto dessa novidade é que entra a programação, mas aí já é outra história.


A TV pública Ceará também entrou em um dos focos do programa e é interessante que algo tão coerente tenha demorado para guinar. Que uma TV pública com qualidade de transmissão e abrangência (apesar de pouco assistida) não seja um palco concorrido para produções audiovisuais. Em 2015/2016, um primeiro edital foi aberto para novas ideias de programas para entrarem na grade oficial do canal (diretrizes vindas da revitalização que ganhou literalmente forma na gestão de Tibico Brasil).


Em 2017, o Ceará Filmes encaixa a TVC nessa discussão e é concreta a importância de sua participação; é recordar imediatamente de editais comuns na Ancine voltado para séries de TV. Editais estaduais também já usaram esse termo, mas não podemos esperar de forma rotineira que um projeto apoiado pelo Governo do Estado vá ser negociado com a Netflix, ou HBO, etc. É claro que é um processo viável, mas não pode se definir que essa busca por exibição venha tão de cima – aos projetos, restam negócios com o (famoso por isso) Canal Brasil, que é maravilhoso.


É tudo muito bonito, mas a desconfiança que citei é pela extrema cordialidade. Em 2016 fui a um evento chamado “Fortaleza 2040”, que previa as mudanças a serem geridas na cidade nos próximos 23 anos. Eram grandes mudanças, voltadas para resoluções urbanas de trânsito, mobilidade e ecologia. Um modo de tornar Fortaleza mais fluida diante dos alarmantes estudos sobre o aumento de carros e população. Enfim, um projeto imenso de difícil e lenta aplicação, e o formato da cerimônia muito se pareceu com este em questão. Em ambos, a presença do governador do Estado Camilo Santana implica na bajulação extrema por todas as partes envolvidas e o processo parece propaganda. Mas desconfiamos que não é, que o Ceará Filmes é um projeto de organização e elaboração sólida; é possível sentir um afeto confortante no modo como o secretário de cultura Fabiano Piúba apresentou os sete eixos do programa. É ambição e respeito vigente, e, para além da iniciativa, a aplicação fica em outro patamar do processo.


Manoel Rangel, presidente da Ancine, foi o autor de uma das palavras mais fortes no evento. Impressionou, mais que tudo, que se transparecesse a proximidade entre o Estado do Ceará com a atuação da Agência no âmbito nacional. É um sopro de confiança que pode transcender questões políticas possivelmente ameaçadas diante das alternâncias de gestão durante o amadurecimento do programa. Depois de tudo que a conturbação de 2015 causou em todas as esferas brasileiras (não só economicamente, como também tragicamente cultural), fica difícil acreditar em qualquer ideia que preze por um longo prazo. Mas o Ceará Filmes tem uma cara de imediatismo, de execução para ontem. Pelo menos foi o que a energia do momento deixou dizer. Vejamos se é verdade.


*Texto originalmente publicado no site Quarto Ato