• Arthur Gadelha

Cats: um entediante devaneio musical sobre solidão

Dirigido por Tom Hooper, o “filme de natal” da Universal Pictures vem decepcionando tanto a crítica quanto o público

Abrindo com 9% de aprovação no Rotten Tomatoes (site agregador de críticas especializadas), o novo filme de Tom Hooper colecionou as críticas negativas mais criativas publicadas pela crítica norte-americana do ano. Teve trocadilho sexual, repúdio ao atentado contra o cinema e até comparação de Hopper a Hitler (sim, isso mesmo). Pelo Twitter, cenas vazadas do filme viralizaram cômicas soluções de CGI para a mesclagem de humanos e gatos. Mas afinal, o que há de tão repugnante em Cats


Baseado em um dos mais famosos musicais da Broadway, ficando em cartaz por quase vinte anos, Cats "conta" a história dos Jellicles, gatos de rua que sonham em ascender ao paraíso numa espécie de evento anual onde apenas um deles pode ser escolhido. Enquanto isso, cantam sobre a miséria, a diversão e o amor que compartilham à margem da solidão da novata, gata recém-abandonada.


Falta muito para que esse longo devaneio de Hooper se empodere sobre a sensibilidade de seu conto, principalmente porque o formato do cinema industrial parece lhe exigir uma linha de narração muito pragmática, fazendo com que o roteiro se torne rapidamente enfadonho ao dividir seu tempo sobre a apresentação da "personalidade" desses gatos.


Desta forma, o filme segue costurando uma narrativa frouxa diante do fluxo entediante desses personagens que surgem sem muito critério, provando que a experiência não propõe qualquer tato ao tentar traduzir bruscamente a admiração do teatro. O vilão Macavity é vergonhosamente vivido por Idris Elba, que a ele só sabe emular um constante sorriso malicioso para justificar um gancho dramático dos piores - o mais frustrante é que Hooper faz desse personagem um antagonismo feito às pressas para dar uma espécie de “empurrada” na trama. O momento do barco, dele no teatro e o que se joga sobre o balão, são sequências realmente humilhantes. A formação de um time para lhe endossar, com direito a uma Taylor Swift que surge do nada, dispensa comentários.


Mas nesse universo há uma qualidade desconcertante quanto a sensação lúdica de seu espaço, que é traduzida de forma atraente em seu visual cenográfico. As ruas abandonadas por onde bailam os gatos Jellicles parecem ter saído do clipe de Edge of Glory, onde Lady Gaga também evoca uma rua de pedras sob luz roxa para figurar a própria solidão na noite. A composição do fotógrafo Christopher Ross para esses cenários parece flertar também com a limitação física do teatro, usando uma luz intensa ao fundo como se indicasse o fim daquele espaço. Ao mesmo tempo, gera uma sensação da embriaguez que pode representar tanto o idealismo de um sonho quanto a metáfora de marginalização que a peça original firma de forma ampla. A mesma intenção sensorial se repete com o cenário do Teatro Egipty que, ao contrário da rua, é um ambiente de cores frias. É onde os gatos se reúnem a Deuteronomy, a gata mais antiga, responsável por decidir o Jellicle escolhido. 


Para além dessas impressões estéticas, é impossível negar que Cats não consiga funcionar nem um terço da maneira como claramente desejava. Afinal, com exceção das aparições de Judi Dench (que emociona com sua função anciã) e alguns outros momentos empolgantes, como das personagens de Jennifer Hudson e Laurie Davidson, há muita bizarrice na cara dessa história. Na cara mesmo. 


Na semana passada, a Universal Pictures anunciou que, pela primeira vez, iria substituir as cópias que já estavam nos cinemas por outra versão do filme com efeitos “atualizados”. Isso porque a reação da crítica e do público foi imediatamente repulsiva aos efeitos especiais, trabalho que assumiu a árdua missão de unir humanos e gatos de forma “bonita”. 


A sequência dos ratos e baratas, logo no início, é de um assombro inacreditável. Há uma preocupação constante em emular os movimentos sorrateiros e “sensuais” (?) dos animais felinos, e essa representação por debaixo de “quilos” de CGI é pouquíssimo orgânica, dando a impressão de um trabalho inacabado. Tudo bem se houvesse algum contexto de deselegância, mas o real problema é que o visual engasgado atrapalha a seriedade do drama - e, de repente, Cats deixa de ser uma história emocionante para ser apenas pose sobre pose. 


Cats assusta, é verdade, ainda mais ao vir de um diretor responsável pelos premiados Os Miseráveis, O Discurso do Rei e Garota Dinamarquesa, mas apesar de todos seus empecilhos estéticos e principalmente narrativos, ainda há uma possibilidade concreta de diversão. Tom Hooper e sua extensa equipe imagética e sonora não gastaram meses de trabalho para um filme que se assiste rindo de vergonha, mas essa parece ser a única escapatória para converter essa estranhíssima experiência musical num momento memorável. Afinal, cada país tem o Cinderela Baiana que merece.

★½

Direção: Tom Hooper

País: EUA

Ano: 2019


*Texto originalmente publicado no site Quarto Ato