• Arthur Gadelha

Cannes 2019: Os Miseráveis expõe uma Paris de violência e preconceito

O diretor de "Les Misérables" é um dos representantes negros no festival


O francês Ladj Ly é um dos "novos" nomes que, todo ano, a curadoria de Cannes se preocupa com uma precisão pontual. Afinal, é um desafio escolher dentre tantos representantes frescos na indústria que tenham bons trabalho cuja forma, tema, contexto e narrativa sejam atraentes ao conjunto da seleção oficial. Ladj, inclusive, é um dos dois realizadores negros presentes nessa edição, dividindo espaço com a também novata Mati Diop.


Ladj vem sendo chamado de "Spike Lee francês" pela ótica que observa uma França de contradições e preconceito racial, uma visão desromantizada que pouco se dissemina nas exportações do cinema francês pelo mundo. A obra que apresenta este ano em Cannes, inclusive, nasceu como curta-metragem em 2017 e indicado ao César, maior festival regional do país.


Les Misérables é o primeiro longa-metragem de Ladj Ly e teve sua premiére no Festival na tarde dessa quarta-feira, 15, antes de Bacurau. A primeira impressão vinda do título se confirmou com a exibição quanto sua origem. Há uma certa ligação com a obra clássica de Victor Hugo e a história usa um subúrbio francês no contexto dos Distúrbios de 2005 na França para versar sobre construção social, violência urbana e vigilância ao partir dos conflitos entre uma brigada anti-criminalidade e a comunidade de Gavroche - mesmo nome do personagem de Victor Hugo.


Na imprensa, a recepção foi morna, destacando a potencialidade do tema e desenvolvimento, mas pontuando os excessos (ou escassez) de alguns pontos da própria narrativa. Confira:


"Les Misérables constitui, portanto, a crônica-choque de um impasse. Ainda que o olhar do diretor seja empático e humanista, pode-se discutir o discurso puramente descritivo, capaz de constatar uma realidade sem argumentar a partir dela."

Bruno Carmelo (AdoroCinema)


"Ladj Ly traça um painel tão verossímil destes indivíduos que se torna impossível não crer que um vasto trabalho de pesquisa de campo precedeu a elaboração do roteiro, que é enriquecido por observações quase tangenciais feitas pelos personagens"

Pablo Villaça (Cinema em Cena)


"O coração humanista de Ly se mostra através da dureza, embora seu retrato conjunto de uma comunidade seja um tanto enfraquecido pela ênfase na experiência do protagonista Stéphane."Jonathan Romney (ScreenDaily)


"O diretor pode querer confrontar essas questões de frente - o racismo e a violência logo abaixo da superfície. De fato, elevá-lo acima da superfície é o ponto. Mas grande parte do drama e da humanidade são atingidos pelos coquetéis molotov."

Peter Bradshaw (The Guardian)


"Enfatizando a ampla atualidade da história de Issa a fim de potencializar sua atemporalidade básica, “Les Miserábles” se recusa a culpar a partida ou o incentivo de um mundo alimentado pelos incêndios que começam juntos"

David Ehrlich (IndieWire)


"Um filme intenso e política que deixa claro que foram mais de 150 anos desde o surgimento do romance de Victor Hugo, mas a pobreza, a marginalização, a violência e as diferenças sociais profundas lamentavelmente permanecem intactos."

Diego Battle (Otros Cines)


"Através dos olhos de um jovem policial do CCB transferido recentemente para Montfermeil, Ladj Ly pinta um retrato sombrio de um bairro onde conflitos e manifestações virilistas são comuns."

Didier Péron (Liberation)

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