• Arthur Gadelha

Canção Sem Nome: o pânico da América Latina silenciada

Filme abriu a Mostra Competitiva de Longas do 29º Cine Ceará.

Após as emoções elétricas dos primeiros dois dias do 29º Cine Ceará, com premiére nacional de A Vida Invisível e homenagem a Lilia Cabral, a Mostra Competitiva Ibero-americana de Longas teve uma estreia dolorosa. O drama peruano Canção Sem Nome, de Melina León, conta a história de Georgina, vendedora ambulante que tem sua filha sequestrada logo após o parto. A seguir, ao tentar ajuda para calar seu desespero, percebe-se calada por um sistema que explicitamente não se importa com o que ela é.


Ao olhar para Georgina, vivida com coragem por Pamela Medonza, parece inevitável lembrar de Cleo, do polêmico Roma, ainda que os filmes não tenham qualquer semelhança de objetivos ao influir sobre uma prisão social. Mas ambas são mulheres de um América Latina silenciada pela repressão da força e se o grito de Georgina já emociona pela ferocidade, causa ainda mais pânico ao fazer pensar que, talvez, ela coloque para fora tudo o que Cleo não pôde dizer.


Para ampliar a invisibilidade que conduz o drama, o roteiro de Melina León e Michael J. White surpreende ao investir num paralelo com o jornalista que, dentre tantos, decide prestar ajuda. Ele porém, por ser um homem gay no Peru dos anos 1980, passa a viver no suspense de também ser silenciado. Para evocar esse medo que vive ao redor, Inti Briones (fotógrafo de O Banquete) parece evocar a estética claustrofóbica de Bela Tarr n'O Cavalo de Turim - cenário que se confirma nos caminhos de Georgina por largas montanhas nubladas por um cinza sufocante.


Em Canção Sem Nome sobra tensão e há pouca resolução num país que sangra a injustiça. Está claro, provavelmente desde que começa, que não há meios para quebrar o "status quo", ainda mais porque relata um caso baseado em fatos vindos de um período "muito específico" da política nacional. Embora não consiga resolver, a obra grita, e grita muito. A dor de Georgina pulsa, e, de repente, os 90 minutos da obra parecem ter durado mais de três horas. Agarrado nessa sensação, por uma imagem fria e desoladora, pela presença de Pamela e a influência sem desfecho dos conflitos paralelos, Canção Sem Nome alcança um sentimento de solidão ainda maior que a monstruosa sala do Cineteatro São Luiz.


*Filme assistido no 29º Cine Ceará - Festival Ibero-americano de Cinema. Texto originalmente publicado no Quarto Ato