• Arthur Gadelha

Café com Canela: sobreviver ao ensaio

Atualizado: 9 de Out de 2020

Uma experiência visual sobre a velha esperança de viver



Quando rostos negros surgem em tela numa montagem acelerada, desconfiamos ainda sem muita certeza que o filme de Ary Rosa e Glenda Nicácio não se contenta com a história que lhe cabe na aparência. Eles não estão ali por serem personagens, mas por centrarem discussões que permanecem nas bordas de um filme que flerta com o próprio limite; no início, quando saltamos de uma memória para uma conversa no futuro, a câmera ao extremo do movimento subjetivo assusta qualquer padrão que possamos conhecer. Café com Canela insiste num estranho convívio entre seus temas e “inovações” narrativas e, embora seja exaustivo, contribui mais do que parece.


Um de seus desafios óbvios é balancear os climas distintos de duas histórias. Margarida (Valdinéia Soriano), está ilhada numa casa que parece cada vez mais escura, perdendo-se nas memórias de um passado que curiosamente jamais chegamos a ver. Da porta para fora, na vida da qual não faz parte, Vitória (Aline Brunne) já é a mulher cheia de esperança. O roteiro assinado por Ary não esconde seu interesse pela solidão, pelas perdas e, em um nível mais frágil, pela vida. Não há muitas gradações entre esses temas que vão surgindo em estalos, e é dessa ausência que o tom ensaístico se aproveita para tomar a história para si. Margarida passa o filme numa caverna que ecoa constantemente sua dor, enquanto Vitória divide uma vida sob um sol.


Ha um motivo pouco definido quanto a experimentação, e o ambiente deixa de ser naturalista em todas as esferas. É visível que essa história teria impacto mais orgânico se seguisse linhas clássicas – em uma cena chave do filme, por exemplo, não há adição potente além do truque quando a câmera assume a visão de um cachorro; ou quando a tela se divide em três partes bagunçando nossa sensação de espaço.


Mas essa teatralidade é utilizada como princípio de inspiração, sem que precise regrar a temática. Diferente de Fences ou Dogville, seus ambientes parecem tão verossímeis para a proposta, que Ary e Glenda comumente forçam essa desconstrução atrás do que não é natural. Diálogos que alternam de um emprego amador a uma concepção teatral constroem uma emoção que não precisa ser plausível. A conversa sobre Cinema, a exemplo, diverge completamente do que conhecemos das personagens e da própria trama, mas faz alusão direta às “brincadeiras narrativas”.


Fica a sensação de que uma história de envolvimento complexo é mera coadjuvante do modo como ela é contada. Mas, ao mesmo tempo, Café com Canela testa os limites do cinema brasileiro e apresenta uma luz nova ao cinema baiano – um dos polos do Cinema Novo (movimento também experimental às ferramentas da época). A “câmera-cachorro” não é algo que Glauber Rocha faria, mas as cenas da laje e a montagem entrecortada seguem inspirações que se mesclam com sua consequência, o cinema marginal brasileiro do fim da década de 1960.


Numa reflexão que acontece ao fim da projeção, essa história sobre o resgate de uma mulher presa ao passado é também sobre um cinema que se defende como instrumento de reflexão social. Ao investir na particularidade das protagonistas, o modo como o filme se abre a essas dores tão distintas é o que o valida. O tom de humor, por exemplo, só existe porque se espelha na realidade e causa um respiro ao tom de ensaio: falas, situações e personagens coadjuvantes envolvem, apesar de que o tema principal seja um sentimento que pouco é explorado além da projeção visual: a parede de sangue, a cozinha claustrofóbica, o flashback sonoro, etc. A beleza dessas ideias sobrevive ao objetivo de contar mais uma história de esperança.


Texto originalmente enviado para publicação da Revista Movimento, da Associação Cearense de Críticos de Cinema - Aceccine

★★★★

Direção: Ary Rosa e Glenda Nicácio

País: Brasil (BA)

Ano: 2017

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