• Arthur Gadelha

Brasil no Oscar: por que a Academia não quer que sejamos lembrados?

Tem brasileiro no Oscar, mas provavelmente nunca ganharemos um.


Em 2016, enquanto vibrávamos pela possibilidade de que Que Horas Ela Volta? surgisse nos indicados a Filme Estrangeiro, a surpresa foi o O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, que foi indicado ao prêmio de Melhor Longa de Animação. O belíssimo filme de Alê ter chamado atenção da Academia é uma conquista interessante de se perceber, mas é uma incógnita no padrão de reconhecimento da associação. Esse ano, dois brasileiros estão no Oscar: Rodrigo Teixeira, produtor de Me Chame Pelo Seu Nome e Carlos Saldanha, diretor de Touro Ferdinando - que provavelmente estarão lá só pra assistir a premiação.


É sempre bom lembrar que o Oscar não é pensado por críticos e cinéfilos, mas necessariamente por representantes da indústria cultural dos Estados Unidos. O cinema "roubado da Europa" no pós-guerra se tornou um dos produtos internos mais exportáveis do país ao ponto de, hoje, depender do mercado internacional para se sustentar. Filmes de 150 milhões de dólares não podem ser feitos para que arrecadem 300 milhões internamente - essa margem se tornou inútil diante das projeções de investimento que, cada vez mais, precisa ser imediato. Esses filmes são idealizados e autorizados porque precisam arrecadar na casa do bilhão mundo afora. Para que esse plano possa funcionar, essa mesma indústria precisa fazer com que públicos tão distintos sejam capazes de consumir o produto. Aí entra o Brasil, um dos países mais rentáveis da América Latina.


Se o Brasil tivesse uma economia protecionista, à espelho do que acontece naturalmente nos EUA, o cinema norte-americano não exerceria tamanha influência. Na década de 30, foi assinado um acordo de importação com os EUA onde um dos produtos era exatamente o "cinema", permitido de entrar no país isento de quaisquer taxas ou impedimentos. Getúlio Vargas, o dito nacionalista, até havia tentado alguns anos antes com a exibição obrigatória de curtas nacionais antes de todo longa estrangeiro - chega a ser engraçado que dez anos depois fosse exigido que se exibisse apenas um longa brasileiro por ano. O nosso referencial ainda era o que vinha de fora, formulando um cenário ideal que precisou ser mantido por quem produz e exporta.


Essa estratégia de sentimento imperialista permitiu que o Brasil fosse tudo o que ele representa hoje para o mercado cultural externo. Numa conversa com o cineasta Francis Vale, ele me alertou que não há motivos para que o Oscar lembre a nós mesmos que temos um cinema. Até pouco tempo, na linda era das locadoras, o cinema nacional era incluso numa prateleira separada dos demais gêneros, e a gente entendia isso - entendia que cinema é aquilo que se produz lá fora, e o que a gente faz... Bem... A gente tenta fazer cinema.


O brasileiro, ao menos, reconhece que possui uma cultura televisiva própria (isso os EUA nunca se importou em nos vender). Os filmes mais bem-sucedidos de bilheteria são os que se espelham ao que produzimos nas telas, a exemplo de Minha Mãe é uma Peça, Até que a Sorte nos separe, De Pernas para o Ar, e até mesmo o fiasco rentável de Os Dez Mandamentos. Para além disso, ou precisa seguir os padrões do “cinema estrangeiro” (que filme bom, até parece americano), ou, numa compreensão secular da nossa bagunçada nacionalidade, precisa ser aprovado por quem faz esse cinema estrangeiro.


É indiscutível que Aquarius seja um dos pilares do nosso cinema atual, mas também é perceptível que o filme pouco teria feito sucesso caso não pisasse em Cannes - mas essa história não é recente, e nem provinda da era digital. O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, trouxe em 1962 a primeira e única Palma de Ouro ao Brasil e, só então, conquistou público suficiente.


Em Cannes, inclusive, a presença do Brasil foi recorrente, ao ponto de concorrer com dois filmes no mesmo ano. A sensação de mercado do festival francês é muito diferente da premiação americana, principalmente porque a França não quer invadir, moldar ou inviabilizar os cinemas que comumente pisam seu tapete vermelho: China, Coréia, Irã, Espanha, etc. O curioso é que ambos eventos são orquestrados e frequentados por profissionais da indústria.


O Oscar age como Cannes justamente na categoria de título original cômico: filme falado em língua estrangeira. Obedecendo um padrão que se transforma com o tempo, os vencedores deste prêmio vêm de países que não representam a “invasão” soberana, que não os preocupa a possibilidade de “perder mercado”. Filmes americanos custam para ser exportados (distribuição, dublagem/legendagem, publicidade), e parece arriscado projetar rendimento em países onde a linguagem do cinema local é aceita. Hungria, Polônia, Irã, Espanha - isso sem citar o grande número de premiações para o cinema europeu que costuma dublar filmes estrangeiros por puro nacionalismo. Enquanto a França foi indicada 40 vezes, a China, hoje um mercado abalador para os EUA, aparece na premiação apenas duas. O Brasil aparece cinco, mas somente duas com filmes integralmente falados em português.


Não faz muito sentido que essa categoria exista para premiar culturalmente o melhor filme do ano feito fora dos EUA. É tolice imaginar que os quase sete mil membros farão um recorte sincero que dispense a publicidade e o conforto da mídia - para além da qualidade, foi exatamente pelo reboliço causado por Aquarius que ele poderia ser indicado, caso o governo temer (no minúsculo) não houvesse sucateado sua importância. Num sentido corporativista, o cineastas lembrados na categoria são convidados à indústria. Michael Haneke, que já produziu uma própria refilmagem para os EUA, Paolo Sorrentino se aventurando na séries de TV, Fernando Meirelles que até tentou uma carreira internacional.


Aliás, pode parecer confuso como que, nesse cenário exclusivista, Cidade de Deus (2002) conseguiu tanto espaço na Academia. Indicado aos prêmios de Direção, Roteiro Adaptado, Fotografia e Edição, o filme se tornou um acontecimento impressionante. Falado em português e tematicamente intrínseco ao Brasil, é uma incógnita como isso pôde acontecer. Em 2004, o blockbuster de super-herói ainda não era esse estrondo que é hoje no país (apesar do sucesso de Homem-Aranha, X-Men, Hulk), e havíamos virado o milênio com a boa memória do cinema da retomada na década de 90. São contextos políticos que levou, por exemplo, Central do Brasil a quase levar seu Oscar pra casa em 1999.


Acontecimentos como esse potencializam uma esperança que pode ser tola, do ponto de vista que precisamos de um Oscar (não somos o DiCaprio). Mas claro que o poder da premiação é imenso ao fazer com que o mundo passe a validar uma cultura cinematográfica completamente desconectada, e essa atenção não poderíamos negar. Só em fazer os brasileiros assistirem aos próprios filmes, já seria uma conquista emocionante.