• Arthur Gadelha

Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância: hipertexto sustentável



O novo longa do mexicano Alejandro G. Iñárritu se vende sobre uma premissa calculável: um longuíssimo plano sequência (chamaremos de ousado) sobre um ator que, às vésperas da estreia de sua nova peça teatral, enxerga-se num emaranhado psicológico afim de compreender o esquecimento do qual foi vítima. Tudo isso intrínseco ao que aproxima o enredo dos que o assistem; cita constantemente redes sociais das quais fazemos parte, atores reais do cenário cinematográfico e franquias de sucesso hollywoodiano (chamaremos de contemporâneo). Embora deixe isso evidente demais, não podemos fugir do adjetivo mais plausível que há em todo esse planejamento: Birdman é genial. A primeira impressão de sua evolução meticulosa é a falta de impacto. Nada mais promissor para um longa que se sustenta na construção obrigatoriamente linear do enredo, acompanhando todas as transformações pelas quais seus personagens passam – de Riggan (Keaton), principalmente. Essa minúcia declara a preocupação de Alejandro em deixar claro seu ponto de vista e descarta o impacto repentino. A surpresa trata-se da unção de todos os elementos técnicos e narrativos que apresenta aos poucos. Esse ritmo sequencial que mostra lentamente sua qualidade é uma resposta direta ao parâmetro que constrói no enredo sobre a trama que realmente atrai o público. Para isso, o roteiro escrito à quatro mãos cita e apresenta produções cinematográficas que usam e abusam do impacto brusco em grandiosas sequencias de ação, ao invés de espalhar por todo seu enredo o que traz de excelente, assim como faz Birdman. O choque positivo alcança a excelência pelo percurso técnico; a câmera de Iñárritu que caminha suspensa pelos bastidores, a edição corretíssima que não falha no que deseja declarar e a fotografia de Lubezki que transita entre cores vibrantes formam um time impecável. A trilha repetitiva ao som seco de uma bateria chega a soar importuna, por mais que tenha um papel fundamental na construção e reflita a própria técnica repetitiva de filmagem – não é em tudo que funciona. Antes do roteiro mostrar ao que veio, o choque deposita-se sobre os atores entregues aos personagens. Não é preciso separar muito para falar de Keaton, sequer de Edward Norton, Emma Stone e Naomi Watts – a fluidez desse elenco é inestimavelmente gratificante. “Michael Keaton – O Filme” diz uma paródia do pôster de Birdman. É claro que há, nas entrelinhas e até fora delas, um enredo sobre o Keaton que “morreu” depois de Batman do Tim Burton, e as pessoas adoram enxergar essa espécie de metalinguagem. Não é possível negar que haja essa preocupação por parte de Iñárritu, já que traz “nomes pops” à trama, como Michael Fassbender, Ryan Gosling e Jeremy Renner. Essa proximidade ao real pode ser enxergada como um aspecto que simplesmente impulsiona a relevância do filme. Como não esconde sua falta de modéstia, o enredo quer, a qualquer custo, lançar Keaton de novo às telas completamente despreocupado com a crítica especializada; ao diminuir sua relevância, deseja alçar voo somente com os elogios que viria a receber. No entanto, o filme pode não ser somente sobre um ator que deseja a fama outra vez; talvez seja sobre o limite da fantasia em contraponto à realidade – por esse ângulo, esquecemos a “alegoria” do hipertexto.

Sobre a temática transcendente que apresenta, o filme resolve ser rudimentar na ambiguidade que oferece em sua conclusão. Se a pergunta final de “Birdman” buscar responder se o que vimos fora fantasia ou realidade (À lá Aventuras de Pi), o objetivo não alcança impulso. Se desejar fixar à própria trama um devaneio sem respostas sobre a realidade, no entanto, pode ser dito que o resultado, como declara a última palavra do primeiro parágrafo, é genial.

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