• Arthur Gadelha

Adriana Calcanhotto às margens do fim do mundo

Cantora e compositora gaúcha passou por Fortaleza deixando os rastros de “Margem”, seu último álbum lançado em junho


Adriana Calcanhotto entra em palco pescada do mar, como os peixes que lá vivem e os plásticos que lá foram jogados, enquanto por trás, um véu azul despenca do teto e se esparrama pelo chão por detrás de seus músicos. Apresentada neste domingo em Fortaleza, a turnê Margem consagra o desfecho de uma trilogia sonora que passeou pelo mar e dissecou suas metáforas - além de Margem, lançamento desse ano, a aventura embarca também nos álbuns Marítimo (1998) e Maré (2008), estabelecendo uma transição de sensações imediatas diante a imensidão de significados por detrás dessas ondas.


Emaranhada numa rede de pesca, Adriana canta todas as novas composições, de Margem à Meu Bonde, que são apresentadas numa mistura com as sensações tão diferentes de suas outras viagens. Isso porque Margem não é mais sobre o mar calmo e acolhedor, mas sobre um mar poluído, convertido em revolta ou decepção em muitas de suas histórias, cenário em que Adriana nada na capa do álbum homônimo.


Ogunté é a canção manifesto mais explícita, ao evocar o “Atlântico salgado de lágrimas negras” antes de apontar os culpados que vivem no próprio lixo: “O plástico do mundo no peixe da ceia. O que será que cantam as tuas sereias?” Adriana está de cabelos rentes à cabeça, vestida de preto, os olhos ainda mais vibrantes em direção à luz que vem da plateia. É um show de tensões que se desafoga quando, vez por outra, ressurge o amor num sentimento que ainda lembra o mar como metáfora de liberdade.


Adriana surpreende a plateia que não consegue prever a inserção de suas músicas de maior sucesso porque surgem em arranjos eletrizantes. Devolva-me entrega ao show um ápice de novas emoções, porque, de repente, é uma música feliz, concreta, revolta numa agressividade escondida no sorriso, como se fosse uma Olhos nos Olhos em seu momento de maior coragem. No desfecho da canção, repete a espera antes do último ‘devolva-me…’, mas ele vem como piedade perante o amor superado. A mesma sensação retorna com Era pra Ser, composição gravada anteriormente na voz de Maria Bethânia, que lamenta a partida imediata de uma história de amor - algo que se repete com certa melancolia em Dessa Vez, outra canção que surge no palco como um grito de certeza:


Estou indo embora. Da nossa história. Dessa vez, de vez

Mas Margem, ao mesmo tempo que é sobre o desleixo com o mar e sua natureza, é também sobre o vislumbre de um novo mundo. Lá Lá Lá, canção mais prazerosa de se ouvir e cantar do álbum, surge duas vezes no palco da turnê. É ela quem encerra o show, logo após uma versão alegre de Maresia trazer uma energia vibrante com a vontade de ser marinheiro. Mas a canção silábica parece ir mais longe na proposta porque fala de um lugar de onde vem toda a consciência de Adriana, seja para a sua própria arte, seja para a vontade de viver num outro mundo.


Lá é um lugar tão longe que sequer tem caminho, talvez como a estrada infinita de Sem Saída, canção que infelizmente não está na playlist. Mas, ao fim da curta jornada, as palmas da plateia completam as de Adriana e seus músicos num extenso 'obrigado' compartilhado, enquanto Lá Lá Lá mira todo o sentimento do show numa beleza sublime. Os versos que, embora sejam palavras, permitem-se abrigar dentro de cada um em diferentes formas de paz. Às margens do fim do mundo, ainda podemos banhá-lo.


Lá onde a onda dá
O que tem pra dar
Antes de quebrar
Onde não é lugar
Nem lá nem cá lá
Pro que palavra não há