• Arthur Gadelha

1917: Emoção da urgência

Principal favorito ao Oscar 2020, novo filme de Sam Mendes conta uma velha nova história


Lembro que em Dunkirk, Christopher Nolan deixou muito claro que seu protagonista era na realidade a ação, a técnica, a pífia brincadeira de montagem temporal que inexplicavelmente lhe rendeu o Oscar respectivo. Não importavam nem os soldados e nem os civis, rendendo algumas cenas mais apáticas quanto engraçadas do subgênero. Mas era certo que ali o filme queria ser uma experiência sensorial que pudesse se utilizar de todo poder inegável da indústria IMAX – e nisso funciona muito bem. Chega um momento que nem a montagem importa mais, mas a ação, a trilha ininterrupta de Hans Zimmer, o som das bombas, o navio que tomba no mar. Já em 1917, o que Sam Mendes propõe, porém, é no que Dunkirk nem quis tentar. Também quer usar essa beleza do IMAX, mas vai atrás de uma emoção que não vem especificamente da guerra ou do prazer de vencer, mas da urgência, do medo e da solidão inerente a esse tipo de violência. Isso é o que ele quer. Consegue coisas legais.


É muito interessante como esse deslumbre dos planos sequenciados por Roger Deakins não chama atenção para si – como Birdman e até O Regresso, de Alejandro G. Iñárritu, o fazem. Nas cenas de travessia – do campo alemão ao lado de Blake, da cidade em chamas e do salto no rio – certamente você percebe a brincadeira e é levado a imaginar o quão trabalhoso devem ter sido de orquestrar. Mas para além desses momentos, o longo caminho não é plástico, cenográfico ou muito menos higiênico. É uma técnica que não faz alarde como Dunkirk o faz no som, mas que serve ao seu propósito aparentemente mais essencial: propor o ritmo da urgência.


A luz de Deakins se esforça, inclusive, para não romantizar a violência como Mel Gibson faz descaradamente no cômico Até o Último Homem, e é bem instigante perceber suas fronteiras. O sangue, as feridas, os corpos e as sujeiras são peças estéticas muito fortes quando surgem, causando até uma reação meio televisiva na plateia que desvia o olhar. Na cena do amanhecer, quando Schofield atravessa a cidade em chamas, o jogo claro-escuro, antes de parecer só uma coisa muito bonita, cria tensão ao saber revelar o ambiente inóspito de forma lenta. Não há beleza na cena, mas na sensação de receber essas imagens e ser levado a sentir uma completa desorientação.


Como num Jason Bourne ou no clássico Corra, Lola, Corra, Sam Mendes trabalha o tempo ao passo da angústia desses personagens, e até em suas distinções da compreensão da própria guerra. Schofield não é tratado como um herói de cinema, mas como uma peça aleatória de um jogo que nem ele, os “inimigos” ou muito menos seus oficiais, entendem as regras.


Não há muito para além disso, também. Uma experiência que precisa ser vivida numa sala IMAX sobre um soldado na correria para completar sua missão meramente geográfica e, no caminho, entender quem é esse inimigo que pode encontrar a cada segundo – os momentos desses encontros, inclusive, são curiosos, filmados quase como um duelo que custa a ser reconhecido.


1917, bom destacar, não é uma joia moral sobre o conflito ético da guerra e nem foge com vigência dessa glamourização do horror que acontece com e sem seu protagonista. Principalmente porque uma trilha mequetrefe (do experiente Thomas Newman) emula um heroísmo do século passado que o filme nem pede, e porque um roteiro, aparentemente construído no intuito, cede para momentos constrangedores que rendem um “tá vendo como esse roteiro é amarrado?”, como a aparição da “amiga” francesa ou a personificação do inimigo alemão.


Sem um epílogo emocionante como Spielberg faz em Ponte dos Espiões ou próprio Nolan faz ao fim de Dunkirk, o filme deixa muito bem enlatada essa sensação de dormência sobre a falta de respostas (e até mesmo perguntas certas) sobre a razão da missão ou da presença desses soldados num abril de 1917.


★★★


*Texto originalmente publicado no site Quarto Ato